quinta-feira, 9 de maio de 2013

Febre do Rato ou lixo hedonista



"Febre do Rato", o novo longa metragem de Cláudio Assis.

Nesta terceira experiência, filmada toda em preto e branco, Cláudio Assis alega mostrar o contraste entre o progresso de Recife, cheia de condomínios (mas com uma ordem social excludente e conservadora segundo o diretor), e a transgressão política e sexual proposta por Zizo (Irandhir Santos), um poeta anarquista que parece vir de outro tempo, menos conformado.



Zizo passa os dias a gritar sua poesia em um megafone, a bordo de um carro capega que dirige pelos múltiplos cenários de Recife – vale dizer que todos os poemas que aparecem no filme são originais, escritos pelo roteirista Hilton Lacerda. Numa casa caótica, Zizo edita e imprime fanzines de protesto (intitulados Febre do Rato, uma expressão popular típica do nordeste usada para dizer que alguém está fora de controle).


Num tanque destinado a prazeres sem fim, Zizo faz sexo com mulheres mais velhas. Pelos bares da cidade, ele se embriaga e fala de mudança na companhia de amigos como coveiro Pazinho, homem de poucas palavras interpretado por Matheus Nachtergaele.


Num segundo momento do filme, vê-se Zizo completamente entregue a um amor não correspondido pela colegial Eneida (Nanda Costa). Ela se entrega a todo mundo, menos a ele. Eis aí a fonte de sua ira e de uma paixão ainda mais incontrolável. Diante da impossibilidade dessa relação, pouco a poesia pode fazer.
Tramas paralelas mostram a juventude da cidade vivendo o amor livre. Conta-se a história de Pazinho e o travesti Vanessa (Tânia Granussi), passional, cheia de idas e vindas.

O que esse filmeco faz é uma apologia barata ao hedonismo, como se ficar entregue aos prazeres, sme restrição é ser livre.


Vejamos o que diz Diotima sobre a origem do Eros no diálogo O Banquete de Platão:

"É um tanto longo de explicar, disse ela; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Eros, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou." 



O Eros estaria sempre entre o mortal e o imortal, morre e nasce a todo o instante. O Eros é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio ele recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista.

Uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Eros é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre. Todo esse desejo  do que é bom e de ser feliz, eis o que é “o supremo e insidioso amor, para todo homem”, no entanto, enquanto uns, porque se voltam para ele por vários outros caminhos, ou pela riqueza ou pelo amor ao esporte ou à sabedoria, nem se diz que amam nem que são amantes, outros ao contrário, procedendo e empenhando-se numa só forma, detêm o nome do todo, de amor, de amar e de amantes. Segundo o qual são os que procuram a sua própria metade os que amam; porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo; pelo menos, se não se encontra este em bom estado, pois até os seus próprios pés e mãos os homens podem amputar, se lhes parece que o que é seu está ruim. Cada um estima, a não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; só amam aquilo que parece bom.




Todos os seres humanos concebem, não só no corpo como também na alma, e quando chegam a certa idade, é dar à luz que deseja a nossa natureza.Como assim? Porque é algo de perpétuo e mortal para um mortal, a geração. E é a imortalidade que, com o bem, necessariamente se deseja, pelo que foi admitido, se é que o amor é amor de sempre ter consigo o bem. É de fato forçoso por esse argumento que também da imortalidade seja o amor. 


Não é estranho o comportamento de todos os animais quando desejam gerar, tanto dos que andam quanto dos que voam, adoecendo todos em sua disposição amorosa, primeiro no que concerne à união de um com o outro, depois no que diz respeito à criação do que nasceu? E como em vista disso estão prontos para lutar os mais fracos contra os mais fortes, E mesmo morrer, não só se torturando pela fome a fim de alimentá-los como tudo o mais fazendo? , a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma - assim como de criança o homem se diz o mesmo até se tornar velho; este na verdade, apesar de jamais ter em si as mesmas coisas, diz-se todavia que é o mesmo, embora sempre se renovando e perdendo alguma coisa, nos cabelos, nas carnes, nos ossos, no sangue e em todo o corpo.


Aqueles que estão fecundados em seu corpo acabam gerando filhos, e é desse modo que são amorosos, pela procriação conseguindo para si imortalidade, memória e bem-aventurança por todos os séculos seguintes, ao que pensam; aqueles porém que é em sua alma - pois há os que concebem na alma mais do que no corpo, o que convém à alma conceber e gerar; e o que é que lhes convém senão o pensamento e o mais da virtude? Entre estes estão todos os poetas criadores e todos aqueles artesãos que se diz serem inventivos; mas a mais importante e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça - destes por sua vez quando alguém, desde cedo fecundado em sua alma, ser divino que é, e chegada a idade oportuna, já está desejando dar à luz e gerar, procura então também este, penso eu, à sua volta o belo em que possa gerar; pois no que é feio ele jamais o fará. Assim é que os corpos belos mais que os feios ele os acolhe, por estar em concepção; e se encontra uma alma bela, nobre e bem dotada, é total o seu acolhimento a ambos, e para um homem desses logo ele se enriquece de discursos sobre a virtude, sobre o que deve ser o homem bom e o que deve tratar, e tenta educá-lo. Pois ao contato sem dúvida do que é belo e em sua companhia, o que de há muito ele concebia ei-lo que dá à luz e gera, sem o esquecer tanto em sua presença quanto ausente, e o que foi gerado, ele o alimenta justamente com esse belo, de modo que uma comunidade muito maior que a dos filhos ficam tais indivíduos mantendo entre si, e uma amizade mais firme entre o homem e a mulher, por serem mais belos e mais imortais os filhos que têm em comum. 



Então seguir-me se fores capaz: deve com efeito, começou ela, o que corretamente se encaminha a esse fim, começar quando jovem por dirigir-se aos belos corpos, e em primeiro lugar, se corretamente o dirige o seu dirigente, deve ele amar um só corpo e então gerar belos discursos; depois deve ele compreender que a beleza em qualquer corpo é irmã da que está em qualquer outro, e que, se se deve procurar o belo na forma, muita tolice seria não considerar uma só e a mesma a beleza em todos os corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho; depois disso a beleza que está nas almas deve ele considerar mais preciosa que a do corpo, de modo que, mesmo se alguém de uma alma gentil tenha todavia um escasso encanto, contente-se ele, ame e se interesse, e produza e procure discursos tais que tornem melhores os jovens; para que então seja obrigado a contemplar o belo nos ofícios e nas leis, e a ver assim que todo ele tem um parentesco comum, e julgue enfim de pouca monta o belo no corpo; depois dos ofícios é para as ciências que é preciso transportá-lo, a fim de que veja também a beleza das ciências, e olhando para o belo já muito, sem mais amar como um doméstico a beleza individual de um criançola, de um homem ou de um só costume, não seja ele, nessa escravidão, miserável e um mesquinho discursador, mas voltado ao vasto oceano do belo e, contemplando-o, muitos discursos belos e magníficos ele produza, e reflexões, em inesgotável amor à sabedoria, até que aí robustecido e crescido contemple ele uma certa ciência, única, tal que o seu objeto é o belo seguinte.


Deve-se subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo.

O amor é acima de tudo buscar na relação algo firme, crescimento pessoal, não simplesmente ficar entregue aos sentidos, como escravo deles. Esse filme deseja trazer uma menagem ao espectador, mas nada traz de belo e bom,ó sujeira hedonista.

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